“Eu amarelo” apresenta um retrato inquietante sobre a vida da autora

A peça “Eu Amarelo” conta a vida inquietante de Carolina Maria de Jesus, uma ex-catadora de lixo que escreveu o livro “Quarto de Despejo” e chegou a vender mais de um milhão de exemplares. A autora, que morou na extinta Favela do Canindé, em São Paulo, relatou sua vida sofrida em um diário e, depois de conhecer o jornalista Audálio Dantas, publicou seu primeiro livro, citado anteriormente, em 1960.

Com dramaturgia de Elissandro de Aquino, direção de Isaac Bernard e com atriz Cyda Moreno interpretando Carolina, a peça teve início em 18 de outubro e segue em cartaz até dia 28 deste mês, na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro.

“Eu amarelo” apresenta três passagens da vida da autora, sendo elas: a vida de Carolina Maria de Jesus na favela, ascensão literária e esquecimento. “O título vem da imagem da fome que ela tinha. Segundo ela, a fome é amarela. E, estando com fome, ela via o mundo todo amarelo”, afirma a atriz.

Veja abaixo a entrevista com Cyda Moreno:

Ônix Comunicação: De que forma Carolina continua sendo atual?

Cyda Moreno: As questões políticas que ela aborda. A exclusão do povo negro nas condições dignas para sobreviverem; as milhares de mulheres negras espalhadas por este país, vivendo nas favelas, periferias e nas ruas, e na luta para matar a fome dos seus filhos e de si mesma. Carolina somos nós, mulheres pretas que ainda lutamos para ocupar nossos espaços, ser valorizadas, ter visibilidade e respeito numa sociedade excludente e racista.

OC – No seu primeiro contato com a obra e vida da autora, o que mais te despertou curiosidade?

CM – Sua inteligência, perspicácia, determinação, superação e convicção do seu potencial… Sua paixão pela literatura e sua capacidade de extrair poesia das piores condições humanas. Um verdadeiro exemplo de superação e vitória para nós, mulheres negras, ainda subjugadas neste país.

OC – Conte um pouco a respeito da sua preparação, execução, elaboração da Peça “Eu Amarelo”.

CM – Bem, o projeto não é meu. Eu fui convidada e escolhida, espiritualmente, por Carolina para desempenhar este papel. Chegou em minhas mãos como um presente, quando já tinha toda a produção, equipe e teatro para estrear. Só faltava a atriz. E quando fiz a primeira leitura, o produtor e o diretor acenaram um para o outro e concluíram: encontramos a “nossa” Carolina. Confesso que em 37 anos de carreira nunca tinha pensado em representá-la no teatro. Nunca fiz nenhum projeto sobre ela. Também nunca assisti a nenhum espetáculo sobre ela, apenas o curta metragem com a atriz Zezé Motta, há muito tempo,  e o curta O papel e o mar, com a minha amiga e comadre Dirce Thomaz. Então concluo que, misticamente e por uma ligação ancestral, foi ela quem me selecionou. Meu trabalho foi, então, parar tudo o que estava fazendo. Ler toda a sua obra e também de outros autores sobre ela, como Joel Rufino dos Santos, meu preferido. Fui atrás de entrevistas e de pesquisadores sobre Carolina, como Raffaela Fernandez, por exemplo. Li contos, poemas e obras ainda desconhecidas do grande público. Enfim, fiz em dois meses uma total imersão em seu universo. Aprendi suas músicas – canto duas na peça. Paralelo aos estudos e aos ensaios, muito trabalho e pesquisa corporal e vocal, pois como se trata de um monólogo. Eu necessito de um bom trabalho técnico para dar as nuances aos variados momentos, situações, clima e personagens que surgem no espetáculo.

 

Foto: Luana Mello

 

OC – Como conheceu a história de Carolina Maria de Jesus?

CM – Carolina me foi apresentada na década de 90. Meu companheiro desta época, diretor de teatro, descobriu Carolina e ficou muito impressionado com a sua história e a semelhança física e conjectural entre Carolina e a atriz Dirce Thomaz, parceira de palco e madrinha do meu filho. Desde então, ele nutria um sonho de realizar um trabalho artístico sobre a sua obra, tendo esta atriz como protagonista. Porém, apesar de toda a apresentação que ele me fez de Carolina, eu não cheguei a ler a sua obra naquele tempo.

OC – Qual a reação do público, que conhece a autora, quando descobre que ela também gravou suas composições?

CM – Ficam perplexos com tanta genialidade, em saber de mais um dos seus feitos e talentos. Carolina veio com uma missão. E nem mesmo as piores condições e miséria,  que  a acompanharam desde a infância, foram capazes de lhe desviar do seu propósito. O Brasil precisa conhecer Carolina. E nossas mulheres pretas, pobres, faveladas e que estão ‘à margem’, se inspirarem em seu exemplo.

 

Foto: Luana Mello

 

 

Foto: Luana Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto: Edu Monteiro

 

Foto: Luana Mello
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Foto: Luana Mello

 

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